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Ciência, mito e Religião II
por Diamantino F. Trindade
28/7/2008
 

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     Ciência, mito e Religião II
 

Ciência, mito e Religião II

Diamantino F. Trindade

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, a Física tem nos apontado que, sob a aparente diversidade, o Universo formou-se a partir de uma matéria única. Para os gregos antigos era chaos, a matéria primordial da qual tudo se originou pela intervenção de Eros. Os alquimistas de todas as épocas chamam-na Matéria-Prima, representada pelo ouroboros – uma serpente mordendo a própria cauda –, símbolo hermético da continuidade das transformações graduais da matéria e do iniciado na Grande Arte.
A questão sobre a origem do Universo consome anos de estudos e exaustivas investigações por parte dos cientistas e se constitui em um dos campos mais especializados da cosmologia, contudo, tal conhecimento, sob um ponto de vista mais próximo ao das nossas necessidades, não interfere nem modifica nossas curtas existências. Nossa imaginação não é capaz de se reportar a um tempo tão distante, portanto vazio de qualquer significado. Então, qual o sentido de tais estudos por parte da Ciência que se caracteriza por um método fundado na objetividade e racionalidade? Por que esse conhecimento transcende a esfera do domínio científico e fascina a tantos?
Outro assunto que instiga a mente dos estudiosos é o da constituição da matéria. Por algum tempo, água, terra, fogo ou ar pareciam ser respostas satisfatórias para alguns; para outros, tudo era formado por átomos. Entretanto no final do último século, novos olhares para as velhas dúvidas tornaram-se necessários e os físicos realizaram um sonho dos antigos gregos, a sugestão de que, sob a diversidade das aparências, o mundo é uma só substância. Por mais aceitável que esta descoberta possa ser para os filósofos, é profundamente penosa para os cientistas, por não compreenderem a natureza desta substância. Se a substância quântica é tudo o que existe e se não entendemos esta substância, nossa ignorância é completa (Herbert, 1989).
Estas perguntas talvez ocultem outra, mais secreta: o Universo é fruto do acaso ou há algum indício de que ele surgiu da vontade de um Ser supremo que dirige todas as coisas? Desde as épocas mais remotas, o homem procura conhecer sua origem e o seu fim. Tal necessidade, a de buscar um sentido, como significado e direção, para sua vida bem como para a existência do Universo, encontra-se nos mitos de criação de todas as sociedades.
Diferentemente da linguagem analítica e racional da ciência moderna, os mitos são expressos em uma linguagem analógica e simbólica que permite as conexões, as significações, as associações, a afetividade, e é a mais apropriada quando buscamos o sentido das coisas e da existência. No entanto, a própria Ciência a ela recorre quando lança mão de expressões como seleção natural, big bang, leis da natureza. Assim, quando um cientista se propõe a responder com teorias questões que se relacionam com sentido da vida humana invade, mesmo que não tenha consciência, o campo do mito
É interessante notar que foi no bojo da Ciência, tida como essencialmente racionalista e objetiva, que as noções de complementaridade, interdependência e subjetividade, inerentes à linguagem simbólica, ressurgiram, especialmente dentro da mecânica quântica e da teoria da relatividade. Sem poder abrir mão daquilo que a sustenta – sua divisão disciplinar, a organização, suas normas e os seus limites – a Ciência começou, recentemente, a incluir em sua perspectiva esses valores, dela excluídos para se constituir. A partir daí, passamos a considerar o Universo como uma teia de eventos, levando em conta todas as suas interfaces: a imagem do Universo como uma máquina tem sido substituída pela de um todo interconectado, dinâmico, cujas partes têm de ser entendidas como padrões de um processo cósmico (Capra, 2001).
Em que pese muitos ainda acreditarem que há um fosso intransponível entre os mitos religiosos e a Ciência, ambos se estruturaram na mesma necessidade, a de explicitar e conferir um sentido à vida humana. A busca e a sistematização do saber parecem ter motivado nossa espécie desde seu aparecimento, e cada sociedade, desde cedo, tentou organizar um conjunto de explicações para justificar os mistérios da natureza, da vida e da morte, expressando-os no que chamamos de mitos.
A religião e a filosofia tornaram-se meios importantes para significar a vida individual e social. A arte continua a revelar aspectos do inconsciente e da situação humana. A Ciência, tomada como um conjunto ordenado de conceitos e técnicas, que visa à compreensão do mundo e suas relações, é mais uma linguagem, um instrumento desta busca. No entanto, no mundo ocidental, adquiriu um caráter hegemônico, com a pretensão de ser seu único critério.
A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer uma razão científica para considerá-la melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da arte ou da poesia. A razão por que hoje privilegiamos uma forma de conhecimento assente na previsão e no controle dos fenômenos nada tem de científico. É um juízo de valor (Santos, 2002).

2. CIÊNCIA E MITO

Em todas as épocas, a interrogação sobre a origem, a organização e o sentido do Universo encontra-se no cerne de todas as mitologias, quase sempre apresentadas como cosmologias tentando desvendar o significado do Mundo e de suas leis. Para o homem, trata-se de um desafio fundamental. Porque, ao enfrentá-lo, interroga-se sobre a origem de seu ser-no-mundo, seu lugar no Cosmos e o sentido de sua existência.
Hilton Japiassu



Pode parecer estranho relacionar Ciência e mito. Pode até parecer contraditório na medida em que o senso comum considera o mito como antagônico à verdade ou à Ciência. Entretanto, o mito não se opõe à verdade como entende a ciência moderna já que responde a diferentes questões, externas ao âmbito da Ciência. Se esta procura descrever como os fenômenos acontecem e estabelecem as leis que regem determinados fatos, o mito, como as artes, procura o sentido que transcende o mensuráve

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